A ideia e o sonho:

IAplicada é um projeto que explora as aplicações de Inteligência Artificial (IA) em duas frentes: 

  • A tecnológica, com o desenvolvimento de soluções de IA para processos e entregas empresariais;
  • E a conceitual, que estuda as implicações da adoção de IA e explora as relações com outras áreas de conhecimento, como aprendizagem e comportamento.

Unimos as duas frentes em nossos projetos de aplicação de IA. É quando a mágica acontece.

Acreditamos em automação com inteligência: a IA vai revolucionar o trabalho, tornando o profissional mais estratégico nas decisões, e mais criativo na execução.

Quem somos:

  • Parte conceitual, diagnóstico e gestão de projetos de aplicação: Lucas Miguel Gnigler.
  • Desenvolvimento técnico das aplicações: José Carlos Vieira Junior + parceiros e desenvolvedores especialistas para cada necessidade.

Moldando a si mesmo

Passei correndo por uma TV antiga na beira da estrada.
Já vi situações semelhantes e já comentei isso aqui antes.
Seria óbvio abordar o fato pela perspectiva ambiental.
Mas nesses casos penso em outra consequência, mais íntima, num nível menos social e mais individual.
Pois o indivíduo, ao livrar-se assim do problema, de forma incompleta e desleal, vai moldando a si mesmo: quando surge uma situação crítica, a primeira reação dele é tentar achar uma forma de escapar da responsabilidade.
Problemas pequenos e frequentes poderiam ser um exercício de preparação (e de programação) para os problemas maiores que eventualmente virão.

Inventando ocasiões

Podemos usar ocasiões como motivos para agir.
Tipo hoje: último dia de julho. Já são mais de quatro meses de rotina construída na total incerteza. E não é só impressão: as semanas estão mesmo passando mais rápido. É a relatividade do tempo, já que os tempos são outros.

A ocasião pode fazer um bom ladrão: hoje, se você quiser, é o dia ideal para repensar e projetar o temido agosto. Inventar um começo ou recomeço é uma opção narrativa interessante. Com menos expectativas e com certa determinação, o que você decidir hoje pode ser o primeiro pequeno passo. Um dia para ficar marcado, já pensou?

Eu estava precisando desse 31 de julho como desculpa para repensar agosto.

O nome das coisas

Você já teve dificuldade em identificar o que estava sentindo?
Acontece: nossa compreensão das coisas chega até onde a linguagem alcança. Se não tem um nome, carece de forma. Não dá para explicar para os outros – e nem para si mesmo.
É preciso ter nome para que exista em um nível consciente.
Possibilidades surgem dessa percepção: eu posso, por exemplo, dar nomes bons a coisas nem tão boas e (mágica!) essas coisas podem mudar.
Por isso, em tese, quanto melhor e mais variado o seu vocabulário, mais possibilidades de classificação existem para você.

A tecnologia amplia a nossa capacidade de compreender as coisas. Uma linguagem de programação já aprende sem precisar ser “ensinada” com mais, digamos, vocabulário. E também já aprende a aprender, grosso modo, com regras e dados. E se aprende a aprender, também aprende, em tese, a criar as próprias regras. Voltamos ao assunto em breve.

Conformado com a incerteza

Ouvi alguém vangloriando as próprias crenças de uma forma inconveniente.

Na hora fiquei irritado. Mas logo passou e fiquei com pena – e senti certa nobreza em mim. Esse sentimento de pena eu considerei o auge da empatia.

Mas não era. O auge, creio, é o próprio ponto de partida: lembrar que nem eu nem ninguém tem certeza de que essa pessoa esteja errada. Vai que é assim, dessa forma que ela acredita, que o mundo realmente funciona? É improvável, é inverossímil, mas não é impossível.

Quanto mais experiente você fica, mais você diz “talvez”, “pode ser”, “não sei”. Ou então fica quieto e incomodado, depois com pena, e enfim conformado com a incerteza.

Talvez um centauro

Um motoqueiro passou por mim mandando um áudio. Numa rodovia. Gritando com o celular, pilotando só com uma das mãos.
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Esse homem já é um ciborgue faz tempo: só trabalha se estiver com a sua máquina. Só se comunica se estiver com outra máquina. Mas ele 1)usa mal a tecnologia e 2)tem mais tecnologia disponível para facilitar sua relação com as máquinas. No contexto dele, já que não dá para estacionar um pouquinho, um fone de ouvido já seria uma evolução para relação homem-máquina.
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A tecnologia (bem ou mal utilizada) molda o trabalho e a vida. O mesmo exemplo: temos capacidade cognitiva para focar só em uma atividade de cada vez. Mas insistimos em tentar usar duas máquinas ao mesmo tempo.
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Pensando bem, esse homem não é um ciborgue. Talvez seja um centauro.

Morreu ontem Rubem Fonseca

Morreu ontem Rubem Fonseca.
Em 2000 e pouco eu li tudo que achei dele na biblioteca pública de Curitiba.
Lembrei de um trecho da biografia do Nietzsche, em que ele descobre por acaso Schopenhauer. E fica deslumbrado por achar alguém que traduzia o que ele pensava e sentia.
Humildemente comparando, deve ter sido parecido com o que aconteceu quando conheci Rubem Fonseca. Ele escrevia exatamente o quê e como eu gostaria de escrever: as frases curtas, agressivas, violentas, sem pudor ou censura. Ele apareceu pra mim logo após Bukowski, um pouco antes de Dalton Trevisan – coincidindo a época com a minha classificação literária.
Eu cheguei a cogitar seriamente trabalhar em algo relacionado ao submundo (tipo ele, que foi policial) para ter inspiração artística diária. Mas olhando para esse tempo, é fácil perceber que foi uma identificação relacionada com uma época imatura e inconsequente.
Mas coloquei na fila uma releitura dele para ver o que eu sinto hoje, um pouco menos imaturo e inconsequente.

Admiradores do Nelson

Vou inserir aqui um trecho de uma crônica do Nelson Rodrigues. Creio que seja desnecessário qualquer comentário ou interpretação da minha parte. Segue:

“Os meus admiradores quase provocaram a minha morte artística. Eis a amarga verdade: durante algum tempo, eu só escrevia para o Bandeira, o Drummond […]. Não fazia uma linha, sem pensar neles. Eu, a minha obra, o meu sofrimento, a minha visão do amor e da morte. Tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Só os admiradores existiam. Só me interessava o elogio; e o elogio era o tóxico, o vício muito doce e muito vil. Pouco a pouco, os que me admiravam se tornaram meus irresistíveis coautores. E quando percebi o perigo, o aviltamento, comecei a destruir, com feroz humildade, todas as admirações do meu caminho.”

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Eu falei na semana passada que Clayton Christensen, maior autoridade em inovação, morreu no dia 23 de janeiro. Um detalhe que eu não falei: eu fiquei sabendo que ele morreu só no dia 30. Mas como? Uma semana depois?

Tudo bem que ele não era uma celebridade fora do mundo dos negócios. Mas já alardeei aqui que parei de acompanhar o noticiário diário. Não quero que a pauta das minhas preocupações seja definida por quem precisa de audiência para os anunciantes. 

Essa última frase pode parecer exagerada. Pode parecer coisa de quem acredita em teorias da conspiração relacionadas com imprensa e poder. Mas não é nada disso. É bem mais simples: somos influenciados pelo que ouvimos. Se você começa o dia pensando em guerra, fome, doença, você vai passar o dia sendo afetado por isso, de alguma forma.

E nada contra esse formato de anúncio pagando a notícia, afinal eu também trabalho com ele. O que tem me incomodado há anos é a forma que a “notícia” é explorada: supostos novos fatos, novos números, especulações, opiniões de “especialistas”. É como sentar para tomar chimarrão com a vó e com a tia, mas sem o chimarrão e as irresistíveis fofocas. Esse é o preço de ser um cidadão informado?

O que admito, e este é o motivo desse texto, é que estar alheio aos, vá lá, “fatos do mundo”, tem algumas consequências negativas. Essa, por exemplo, de perder o dia da morte de uma referência tão importante. É até estranho lamentar uma semana depois.

Em tempo: Kobe Bryant morreu no dia 26. Eu fiquei sabendo instantes depois ao dar uma espiada no Instagram. Mais uma reflexão: de que adianta apreciar o noticiário com moderação, se as notícias migraram faz tempo para as redes sociais?

Clay

Clayton Christensen, talvez a maior autoridade no campo da Inovação, morreu no dia 23 de janeiro.

O livro mais famoso de Clayton Christensen está aqui na minha mesa: O Dilema da Inovação. Basicamente, Clay (para os íntimos) percebeu que aquilo que construiu o sucesso de uma empresa pode ser aquilo que causará sua ruína. Ela se abraça ao modelo inicial, que trouxe o sucesso, e não muda. Não inova.

Existem desdobramentos do mesmo problema a nível pessoal. Pessoas saudosistas em relação ao passado, em geral, são aqueles que não conseguiram se adaptar às mudanças. Por teimosia ou preguiça, acreditaram que era algo passageiro. Mas o mundo mudou e eles ficaram ou caíram. Eis o dilema: mexer em time que está ganhando, ou que costumava ganhar?

No entanto, o livro dele que mais me impactou se chama “Como Avaliar sua Vida?”. Este não está na minha mesa, e não lembro para quem emprestei. Não vou entrar em detalhes, mas gostaria de destacar uma lição que me marcou: a defesa que ele faz da renúncia, da dedicação, do sacrifício – e como isso impacta, em retrospectiva, na avaliação da própria vida.

Eu recomendei esse livro do Clay para várias pessoas. Mas creio que em nenhuma o impacto foi tão grande quanto foi em mim. E eu acho que eu sei o motivo: eu conhecia a estatura acadêmica dele. Eu sabia que, se um especialista como ele tinha algo para falar sobre a vida, provavelmente merecia ser lido. E relido.

Já as pessoas para quem eu emprestei não tiveram a mesma sorte. Era só um livro que o Lucas indicou. 

No mesmo dia 30, o e-mail diário do Seth Godin lembrava a dificuldade que é fazer alguém mudar de ideia. Em geral, só muda de ideia quem quer. E isso é facilitado quando alguém influente recomenda, digamos, um livro. A influência pode fazer você mudar de ideia – mais do que a grandeza da nova ideia em si!

Um colaborador escreveu um belo texto de despedida no blog da Harvard Business Review. Ele lembrou de uma frase de Clay:

“A única métrica que importa na minha vida é a quantidade de indivíduos que eu pude ajudar, um de cada vez, a se tornar uma pessoa melhor.”

Assim como Peter Drucker, ele considerava a gestão a mais nobre das profissões. Pois o chefe tem a capacidade de impactar a vida do seu funcionário como ninguém mais. E esse funcionário pode levar a mensagem e o comportamento adiante – para a sociedade, para o próprio lar.

Se o seu chefe indicasse o livro do Clay, você leria? E será que você mudaria a forma de avaliar a vida?

clay foto caminhando

As releituras

Já conhecemos uma forma relativamente eficiente de aprender: a repetição.

Quando você vê, lê ou ouve a mesma coisa várias vezes, a tendência é que você decore. E quem sabe comece a aplicar ou praticar o que aprendeu. Além de biológico, é uma questão de probabilidade: mais repetições, mais chances de gravar.

Por isso, uma ideia: ter sempre no canto da mesa 4 ou 5 livros essenciais que tivemos a sorte de encontrar. E reler os pontos destacados, com frequência. Do ponto de vista prático e educacional, é muito mais relevante revisar para não esquecer do que apenas aventurar-se em novas leituras. Com tanta informação disponível, torna-se fundamental encontrar um equilíbrio entre recapitular e explorar.

E tem outro fato: a cada leitura, o livro muda, pois ao longo do tempo o leitor muda e interpreta de outra forma. E nessa evolução não é raro o livro preferido perder o seu lugar de destaque na pilha. É assim que mudamos de perspectiva e evoluímos.

E o melhor: a releitura é um alento para um consumidor conservador como eu, que teme colocar tempo e esforço em algo que pode não valer a pena.