Ocultar as curtidas

Há alguns anos escrevi um texto que questionava o seguinte: o Instagram muda as pessoas, ou apenas revela quem elas são?

Acho que eu já tinha a resposta, mas não consegui articular direito. É fato: a busca por confirmação social através de curtidas nos moldou – para pior. Mudamos e, performáticos, sofremos as consequências.

Surge uma esperança: ocultar as curtidas pode nos moldar mais uma vez. Veremos. Volto ao tema em alguns anos.

Confirmação emocional

Vou repetir aqui duas frases que usei ontem:

“Sentimos prazer, literalmente, quando encontramos informações que comprovam as nossas crenças. A dopamina entra em ação quando você ouve o que confirma e agrada.”

Repito porque cheguei num exemplo que ilustra perfeitamente 1) nossa natureza emocional e 2) o nosso viés de confirmação.

O exemplo: quando você encontra uma música que fala exatamente o que você está sentindo. Você ouve mil vezes, decora a letra, manda para as pessoas, ri ou chora (tanto faz), posta um trecho, vai no show do artista. Tudo porque você achou alguém que traduziu (e confirmou) o que você estava sentindo.

E não adianta alguém tentar provar por A + B que você deveria pensar diferente. Não é da nossa biologia mudar de ideia com base em fatos. Por isso insisto: por que insistimos em argumentar tanto?

 

Furar a própria bolha

Sentimos prazer, literalmente, quando encontramos informações que comprovam as nossas crenças. A dopamina entra em ação quando você ouve o que confirma e agrada.

O Facebook sabe disso, e por isso você é abastecido só com informação “relevante” para você. O algoritmo trabalha para manter a sua aparente coerência: uma bolha construída com base no que você curte e compartilha.

É por isso que a ideia de que os opostos se atraem é falsa. São os semelhantes que se unem: um alegrando o outro enquanto comprovam pontos de vista em comum.

Tentar conviver com diferentes traz um enorme desconforto psicológico. Mas é o preço para furar a própria bolha.

Fatos não viram crenças

Em geral não mudamos de ideia quando temos acesso a dados ou fatos divergentes. Mesmo assim, argumentamos e brigamos, tentando fazer a outra pessoa entender o nosso ponto de vista. Tentando fazer a outra pessoa compreender a (nossa) verdade.

Essa nossa capacidade racional não é boa para compreender fatos objetivamente – ela evoluiu, desde as primitivas aglomerações, para argumentar, brigar, ganhar o debate. Imagine a confusão: um ser emotivo, movido por hormônios, tentando convencer a tribo com os supostos fatos.

E talvez por isso que a gente ignora a ciência na formação das nossas crenças. Só usamos os fatos quando queremos mostrar para os outros índios que temos razão.

Explorou pouco

Eu invejava quem tinha uma carreira traçada desde cedo. Quem estava seguro em relação ao futuro – e por isso, coerente no presente.

O que se sabe hoje, no entanto, é que os primeiros anos da juventude PRECISAM ser dedicados à exploração. Chega a ser biológico. Logo, aquela certeza profissional inicial tem grande chance de não ser precisa.

Em breve, lá pelos 30, 40 anos, aquele jovem, que deveria ter explorado, percebe que explorou pouco. Sorte do outro, que estava perdido! E que justamente por isso explorou possibilidades, curioso. Hoje ele sabe, ou está quase descobrindo, por onde ir.

O motivo da reclusão

O passar do tempo, tema inesperado da minha semana, ocasiona outro fato curioso: o velho, de tanto que viu, começa a falar obviedades. E o novato, que outrora o admirava, não vê mais novidades nos insights. Acha que o velho está perdendo a capacidade intelectual.

Mas não sei se é isso. Acho que é mais o que venho explorando aqui: coisas que o agora velho sempre soube, que sempre considerou óbvias, começam a fazer mais sentido.

Um exemplo: a importância da fé. O raciocínio, se for escrito assim, direto, vai parecer simplório. Mas ele se tornou profundo para o experiente. Pois ele já viu muito. Ele já deu a volta ao mundo, e pode ter dificuldade de comunicar sua sabedoria para quem ainda não cruzou algumas fronteiras metafóricas.

Eu imagino que seja por isso que muito ancião opta pela reclusão. Ele enfim percebe que não adianta pregar – o aprendizado, se vier, virá com o tempo, e não com conselhos.

 

Cai a ficha

As reflexões decorrentes do passar do tempo acarretam um fenômeno curioso, que começa a acontecer com maior frequência: “cai a ficha”, e você passa a realmente entender, de uma forma mais ampla, algo que você (teoricamente) já sabia.

É a história do navegador que partiu em busca de um novo continente. Navegou por muito tempo, e quando já estava sem esperanças de encontrar um novo mundo… terra à vista! Só que quando atracou, percebeu que não era uma descoberta – era a costa oposta do seu próprio país.

Por um lado a decepção – por outro, a alegria de estar em casa. Ele partiu e buscou por tanto tempo, mas nada encontrou. Mas graças à longa procura, na volta ele está preparado para ver o que no passado não via.

O tempo e a reflexão não mudam a paisagem. Mas mudam os olhos – e a ficha cai. Teoricamente, pelo menos.