Mudar em 10 anos

Você que tem 25 anos, lembra como você era quando tinha 15? O que houve com toda aquela inconsequência?

“Ah, era a adolescência!” Não era só isso: daqui 10 anos você vai ter mudado muito de novo. E, já me alertaram, daqui 10 anos de novo. Para quem escolheu trilhar um caminho de reflexão e aprendizado, voltar 10 anos no tempo é olhar a si mesmo, na melhor das hipóteses, com pena e piedade, achando graça daquele personagem inocente.

Ou seja: deveríamos ter menos certezas e continuar explorando. Pois vamos continuar ingenuamente errando. Esse é o jogo. O que me parece crucial é não cometer nenhum erro extremo que acabe nos tirando do jogo. Ou melhor: um erro tão grave que não permita voltar ao caminho de reflexão e aprendizado.

Ser X para fazer Y

Quando eu percebi, eu estava pensando assim: 

“Quando eu for X, daí sim eu vou começar a fazer Y.”

É muito fácil esquecer que, em muitas situações, para fazer Y não é necessário ser (ou ter) X. E assim, a ausência de X se torna uma boa desculpa para continuar parado.

E o mais grave: em muitas situações acontece o contrário: é preciso fazer muito Y para poder se tornar X.

A pele em jogo

Ouvi dizer que na Roma (Grécia? Mesopotâmia?) Antiga o arquiteto que projetava uma ponte era o primeiro a passar por ela – ele e a carga que ele calculou que a ponte suportaria. 

Perdemos isso em algum momento da nossa história. Hoje, supostos técnicos e especialistas tomam decisões, afetam a vida de muita gente e saem ilesos de resultados desastrosos.

Quem projeta ou propõe precisa encarar as eventuais consequências também. E se isso não for acontecer, o projeto ou a proposta perdem credibilidade.

Responsável pela consequência?

Assumir responsabilidade é nobre. E é uma forma de encontrar propósito. Responsabilidade por si próprio, pelos próprios atos, antevendo, se possível, as consequências desses atos.

Ser responsável pelas consequências? Esse pode ser um problema: nem sempre controlamos as consequências dos nossos atos. Só que o nobre que assume responsabilidades acaba criando o hábito de “culpar-se” pelos resultados. E na maioria das vezes esse resultado é aleatório: a venda, o placar, a nota, a maioria das medidas de sucesso que usamos não são reflexo direto do esforço.

É preciso ser otimista em relação às causas de um resultado ruim. E não deixar o resultado final ser a única forma de avaliar o processo que culminou nesse resultado.

Como pessoas aprendem

As máquinas aprendem ao serem alimentadas com muitos dados. Quanto mais dados, mais reconhecimento de padrões. A mesma lógica funciona para as pessoas? Mais ou menos.

Em tese, quanto mais dados você tiver, mais conhecimento você acumula. E assim como a máquina, dependemos da quantidade e da qualidade dos dados.

Mas tem algo que muda bastante: a forma de aprender. A máquina aprende com dados. A pessoa também – mas os grandes aprendizados vem da reflexão.

Ou seja: para aprender, a máquina precisa só de respostas. A pessoa precisa também de perguntas. 

Intuição mística

É mais confiável usar regras, fórmulas e algoritmos simples do que confiar na própria intuição. Mas não é o que acontece por aí.

O melhor exemplo: a suposta intuição do especialista. Na verdade, chamamos de intuição a forma que a memória trabalha: identificando padrões gravados ao longo do tempo. E isso é feito de forma automática, inconsciente, por mecanismos indecifráveis da memória. E justamente por ser algo assim, milagrosamente complexo, acreditamos numa origem mística da intuição.

Deve ser por isso que algumas estrelas acreditam que tem um feeling, um faro aguçado, um dom de decretar o que é bom e o que é ruim, o que vai dar certo e o que vai dar errado. O cliente dele também acredita nesse dom.

Um alerta: o reconhecimento de padrões é a habilidade básica da inteligência artificial. Havendo dados, a máquina vai aprender a comparar zilhões de padrões para tirar conclusões.

De duas uma: ou a inteligência artificial começa a derrubar os especialistas intuitivos, ou começamos a acreditar que a IA também é algo místico.

Ousado e carente


Estudos de economia comportamental tornaram explícito nosso viés de aversão à perda. Optamos pela estabilidade quando avaliamos riscos e oportunidades. É o nosso instinto de sobrevivência. Mas existe uma situação em que uma decisão ousada é considerada a melhor opção: quando não temos muito a perder.

Quando não temos uma base que precisamos ou queremos manter, arriscamos mais. Pode até parecer óbvio. Mas andei pensando na questão de outra forma.

Se você admira alguém ousado e arrojado, atenção: pode ser que ele seja assim justamente porque lhe falta estrutura e responsabilidades. Ou porque não assume a devida responsabilidade pelo que tem.

Quem sabe ele até gostaria de ser mais conservador e cauteloso – mas ele não tem motivos para isso. Logo, o ousado que corre muitos riscos pode ser apenas solitário e carente. Ou inconsequente.

Lembrei do Millôr Fernandes: “Quão maravilhosas são as pessoas que não conhecemos bem.”