Admiradores do Nelson

Vou inserir aqui um trecho de uma crônica do Nelson Rodrigues. Creio que seja desnecessário qualquer comentário ou interpretação da minha parte. Segue:

“Os meus admiradores quase provocaram a minha morte artística. Eis a amarga verdade: durante algum tempo, eu só escrevia para o Bandeira, o Drummond […]. Não fazia uma linha, sem pensar neles. Eu, a minha obra, o meu sofrimento, a minha visão do amor e da morte. Tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Só os admiradores existiam. Só me interessava o elogio; e o elogio era o tóxico, o vício muito doce e muito vil. Pouco a pouco, os que me admiravam se tornaram meus irresistíveis coautores. E quando percebi o perigo, o aviltamento, comecei a destruir, com feroz humildade, todas as admirações do meu caminho.”

*

Eu falei na semana passada que Clayton Christensen, maior autoridade em inovação, morreu no dia 23 de janeiro. Um detalhe que eu não falei: eu fiquei sabendo que ele morreu só no dia 30. Mas como? Uma semana depois?

Tudo bem que ele não era uma celebridade fora do mundo dos negócios. Mas já alardeei aqui que parei de acompanhar o noticiário diário. Não quero que a pauta das minhas preocupações seja definida por quem precisa de audiência para os anunciantes. 

Essa última frase pode parecer exagerada. Pode parecer coisa de quem acredita em teorias da conspiração relacionadas com imprensa e poder. Mas não é nada disso. É bem mais simples: somos influenciados pelo que ouvimos. Se você começa o dia pensando em guerra, fome, doença, você vai passar o dia sendo afetado por isso, de alguma forma.

E nada contra esse formato de anúncio pagando a notícia, afinal eu também trabalho com ele. O que tem me incomodado há anos é a forma que a “notícia” é explorada: supostos novos fatos, novos números, especulações, opiniões de “especialistas”. É como sentar para tomar chimarrão com a vó e com a tia, mas sem o chimarrão e as irresistíveis fofocas. Esse é o preço de ser um cidadão informado?

O que admito, e este é o motivo desse texto, é que estar alheio aos, vá lá, “fatos do mundo”, tem algumas consequências negativas. Essa, por exemplo, de perder o dia da morte de uma referência tão importante. É até estranho lamentar uma semana depois.

Em tempo: Kobe Bryant morreu no dia 26. Eu fiquei sabendo instantes depois ao dar uma espiada no Instagram. Mais uma reflexão: de que adianta apreciar o noticiário com moderação, se as notícias migraram faz tempo para as redes sociais?

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