O poder da restrição

Peter Drucker propagou um conceito valioso: tornar a força produtiva. Insiro aqui um trecho dele: “O gerente (executivo) eficaz torna a força produtiva: ele sabe que nada se constrói sobre a fraqueza. Tornar a força produtiva é a única finalidade da organização. Não podemos logicamente vencer as fraquezas com que todos nós somos abundantemente dotados. Mas o gerente pode torná-las irrelevantes: sua função é usar a força de cada homem como material para a construção da execução conjunta.”

Isso me guia há tempo: focar nos pontos fortes, nas qualidades, nas habilidades – minhas e das pessoas que trabalho e convivo. E não ficar tentando consertar o que elas tem de fraco, falho.

Mas as aparentes fraquezas podem ser poderosas.
Ouvi, por exemplo, a história de um psicólogo surdo. Em tese, esse ponto fraco (surdez) o impediria de ser psicólogo. Como vai entender um paciente? Mas depois de bem sucedido, quando questionado, o psicólogo dizia que escolheu a profissão justamente por causa da restrição. Foi uma forma de superação (leitura labial). Será que, no caso dele, esse foco total dos olhos na comunicação não acaba captando sinais que passam despercebidos na audição?

Outro exemplo: tropecei na história dos bastidores do Concerto de Colônia, de Keith Jarrett. Ele chegou no local do show e viu que o piano preparado era um instrumento de ensaio. Ele não conseguiria tocar o que havia planejado. Pensou em cancelar o show. Mas a casa estaria cheia, a gravação preparada, e foi convencido a tentar. Disse ele, décadas depois: “O que aconteceu foi que aquele piano me obrigou a tocar de um jeito diferente do que seria o normal.” E assim nasceu um dos discos mais famosos da história do jazz. Estou ouvindo ele agora, enquanto escrevo.

Será que aquela restrição, ou aquele ponto lamentavelmente fraco, não poderia ser justamente o motivo de uma obra original? Há um obstáculo no caminho. Ele exige um caminho diferente. Que talvez leve a um novo lugar.

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