Algo na minha área

Primeiro vem o ingênuo:

“Lucas, eu estudei 5 anos para ter meu diploma. Preciso de um trabalho na minha área.”

Não trabalhar na área da graduação ainda é visto como motivo de vergonha. É como se fosse um fracasso não conseguir ganhar a vida fazendo o que estudou (ou o que a família bancou).

Depois, vem o desiludido:

“Estudei para fazer isso, Lucas. Agora é tarde para querer trocar de profissão”.

Como se o diploma condenasse alguém a um único caminho profissional – escolhido por um jovem imaturo, que não conhecia o mundo ou a si mesmo (e aqui também tem a influência familiar).

Qual outro custo irrecuperável você vai deixar prejudicar o seu futuro?

O que você fez até hoje não pode impedir a mudança que você busca. Não interessa o que os outros vão dizer. Não interessa eventual carteira de clientes, ou a experiência adquirida. O melhor momento de plantar uma árvore era há 10, 20 anos. O segundo melhor momento é agora.

Não precisa (e nem deve!) ser uma mudança radical. Mas algo gradativo, pequenos projetos, avançando um pouco todo dia, no tempo livre, nos finais de semana.

Em tempo, um detalhe: que dó do profissional ingênuo que acredita que, assim que entrar “na sua área”, tudo vai dar certo.

Para sofrer menos

Existe uma diferença fundamental entre dor e sofrimento.

A dor é momentânea. É inevitável: uma reação automática do organismo ao golpe.

O sofrimento, grosso modo, é o que você vai pensar sobre a dor que você sentiu. O sofrimento é a história que você inventou sobre o que aconteceu.

Eu te dei um beliscão. Doeu um pouquinho, mas logo passou. Mas faz meses que aconteceu e você continua sofrendo, tentando entender. Eu já nem lembro mais do motivo. Já pedi desculpas, mas não adianta.

Esse é o preço que pagamos por ter um cérebro tão evoluído. Ficamos formulando hipóteses para os acontecimentos. Racionalizando o inexplicável. E o pior: tentando racionalizar o que é irrelevante.

Sabendo que funcionamos assim, o que VOCÊ poderia fazer para sofrer menos?

Pensando em voz alta

É importante ter bons amigos, de confiança. Mas tem um risco: você constrói essa confiança, essa conexão, e o seu amigo começa a usar você para pensar em voz alta.

Você sabe de quem eu estou falando: aquele amigo cheio de ideias, que insere você num projeto imaginário. Mas ele só estava pensando em voz alta: palpitando possibilidades, como aconteceria, o que ele pensa em fazer.

Depois ele some. Esquece. Deve ter ido pensar em voz alta com outra pessoa. E se essa outra pessoa for ingênua, vai se decepcionar, pois ele fala, fala, empolga, e nada acontece.

Por isso sugiro conhecer pessoas novas. Aqueles que ainda não são amigos de confiança. Eles vão falar com você porque precisam, porque querem saber o que você acha. E se essa pessoa nova também só estiver pensando em voz alta com você, tudo bem – deixe que ela siga divagando por aí. Mas quem sabe você tenha a sorte de achar alguém que está falando sério. Que está traduzindo em palavras o que ele já faz.

E quem sabe você entre nesse ônibus, pois ele é real! Ele está indo para algum lugar. O triste é estar sempre pegando carona em tapetes voadores que andam em círculos.

A propósito, você não é esse tipo de amigo, né?

Aprender a sobreviver

Estou começando a achar que superestimamos o sucesso. E subestimamos a necessidade de sobreviver. Ou melhor, de aprender a sobreviver. Se você não sobreviver, consequentemente não vai ter sucesso: para ter sucesso é preciso estar vivo.

Pode parecer óbvio. Mas imagine uma empresa que ainda não aprendeu a sobreviver, mês após mês. Vai ser difícil ela atingir o tal sucesso. É nesse esforço de sobrevivência – o que dá certo, o que não fazer, aprender com os erros – que começamos a vislumbrar caminhos interessantes. E isso vale, obviamente, para a vida. Assim que eu aprendo a sobreviver, eu começo a descobrir como progredir. Como deixar a minha marca. Como causar mudanças.

O mercado exige, cada vez mais, que uma empresa aprenda a sobreviver. O mundo atual, no entanto, exige cada vez menos esforços de sobrevivência das pessoas. Os nossos antepassados lutavam diariamente contra as forças da natureza. Nós lutamos contra a preguiça e contra o tédio, sem muito sucesso.

O que impacta

Os estudos de Hawthorne mostraram que o que mais impactava (bem ou mal) a produtividade da equipe era… ter alguém olhando. No caso, o fato de ter os pesquisadores na fábrica influenciou o aumento da produção. No nosso caso, o que mais influencia (bem ou mal) é ter o chefe por perto. Mas esse é só um fator.

Dizem que as primeiras mulheres que entraram nos departamentos de vendas não deram certo. Será que as mulheres não são boas vendedoras? Não. Um dos motivos é que elas eram poucas. Chamavam a atenção no meio de um batalhão de homens com metas até o pescoço. Assim que a disparidade diminuiu, e não era mais surpresa ver uma mulher vendendo, viu-se que o gênero não influenciava o resultado. Mas claro que não basta só isso: existem inúmeros fatores que tornam alguém eficiente no que faz.

O que mais me incomoda é a nossa insistência de encontrar causas para as consequências. Como se o mundo fosse linear como uma ferrovia, na qual o trem descarrilha por um motivo claro – e que mesmo assim só é notado após o acidente.

Precisamos aceitar a complexidade das coisas. Tudo que desconfiamos saber são só hipóteses. As pessoas agem com base em emoções e motivações inconscientes. Tentar entender é fundamental, mas querer explicar é ingênuo e errado.

Tentar entender é fundamental? Sim. O objetivo inicial dos experimentos de Hawthorne era entender o impacto da iluminação na produtividade. Mas entendemos que a dinâmica de trabalho é muito mais complexa.

“Sinônimo de qualidade”

Só mais um comentário sobre “Trabalhar para pagar as contas” versus “Fazer a sua arte, o seu sonho”.

Se você já paga as contas fazendo o que você gosta (a sua arte, o seu sonho), sugiro um cálculo rápido. Do seu tempo de trabalho, 1) quanto tempo você gasta agradando e se adaptando aos atuais clientes, e 2) quanto tempo você gasta procurando clientes melhores.

Lembro de uma empresa que me disse que queria criar uma marca forte, “sinônimo de qualidade”. Minha pergunta é sempre a mesma: e como vocês conquistam clientes? “Com base em orçamentos de menor preço”, eles responderam. É a nossa ilusória rotina: temos um objetivo (ser “sinônimo de qualidade”) que não combina com as nossas ações do dia-a-dia.

Para ter clientes melhores, é preciso ter uma solução melhor. E uma solução boa exige tempo, prática, erros, experiências. Uma boa solução (produto, serviço) exige feedback de quem é bom. As reclamações de quem você conquistou só porque baixou o preço provavelmente não vão trazer melhorias.

Liberdade é dizer não

Mais um motivo para você ter um trabalho que pague as suas contas, enquanto no tempo livre você pratica a sua arte (o seu sonho): você não vai precisar trabalhar com clientes ruins.

Um exemplo: você quer ser consultor de uma área específica. Você está começando. Mas se você já precisa da consultoria para pagar as contas, vai ter que aceitar trabalhos que não “casam” com a sua entrega. Vai ter que se adaptar ao cliente ruim, afetando o trabalho final.

Mas se você não depende do dinheiro da consultoria, você vai poder escolher melhor com quem trabalhar. Vai poder cobrar um preço justo, ou não cobrar nada. Ja pensou: é você quem escolhe os projetos e os clientes.

E o melhor: não vai precisar vender coisas banais, simplificadas, enquanto implora curtidas em redes sociais. O seu objetivo no seu tempo livre é a qualidade. É aprimorar. É aprender, escolhendo com quem, como e por quanto trabalhar.

Liberdade e autonomia, para quem toca projetos paralelos, é poder olhar tranquilamente para uma proposta ruim e dizer: “Não, obrigado”.