Explorou pouco

Eu invejava quem tinha uma carreira traçada desde cedo. Quem estava seguro em relação ao futuro – e por isso, coerente no presente.

O que se sabe hoje, no entanto, é que os primeiros anos da juventude PRECISAM ser dedicados à exploração. Chega a ser biológico. Logo, aquela certeza profissional inicial tem grande chance de não ser precisa.

Em breve, lá pelos 30, 40 anos, aquele jovem, que deveria ter explorado, percebe que explorou pouco. Sorte do outro, que estava perdido! E que justamente por isso explorou possibilidades, curioso. Hoje ele sabe, ou está quase descobrindo, por onde ir.

O motivo da reclusão

O passar do tempo, tema inesperado da minha semana, ocasiona outro fato curioso: o velho, de tanto que viu, começa a falar obviedades. E o novato, que outrora o admirava, não vê mais novidades nos insights. Acha que o velho está perdendo a capacidade intelectual.

Mas não sei se é isso. Acho que é mais o que venho explorando aqui: coisas que o agora velho sempre soube, que sempre considerou óbvias, começam a fazer mais sentido.

Um exemplo: a importância da fé. O raciocínio, se for escrito assim, direto, vai parecer simplório. Mas ele se tornou profundo para o experiente. Pois ele já viu muito. Ele já deu a volta ao mundo, e pode ter dificuldade de comunicar sua sabedoria para quem ainda não cruzou algumas fronteiras metafóricas.

Eu imagino que seja por isso que muito ancião opta pela reclusão. Ele enfim percebe que não adianta pregar – o aprendizado, se vier, virá com o tempo, e não com conselhos.

 

Cai a ficha

As reflexões decorrentes do passar do tempo acarretam um fenômeno curioso, que começa a acontecer com maior frequência: “cai a ficha”, e você passa a realmente entender, de uma forma mais ampla, algo que você (teoricamente) já sabia.

É a história do navegador que partiu em busca de um novo continente. Navegou por muito tempo, e quando já estava sem esperanças de encontrar um novo mundo… terra à vista! Só que quando atracou, percebeu que não era uma descoberta – era a costa oposta do seu próprio país.

Por um lado a decepção – por outro, a alegria de estar em casa. Ele partiu e buscou por tanto tempo, mas nada encontrou. Mas graças à longa procura, na volta ele está preparado para ver o que no passado não via.

O tempo e a reflexão não mudam a paisagem. Mas mudam os olhos – e a ficha cai. Teoricamente, pelo menos.

Uma bolinha de açúcar

Ontem escrevi sobre o fato de que, pagando mais caro, temos melhores resultados. É um fenômeno psicológico estudado à exaustão. E se você for um observador honesto, vai perceber em si mesmo os momentos em que o preço ou a marca moldaram a experiência e potencializaram (ou inflacionaram) o resultado.

Isso nos leva diretamente ao efeito placebo. Uma bolinha de açúcar que você engoliu pensando ser remédio. E você acreditou (acreditar é a parte importante) e a dor passou. Deveríamos criar e usar mais placebos.

E isso tem me levado, ultimamente, ao primeiro recurso com o qual fui doutrinado para enfrentar o mundo: a fé. Acreditar sem ter certeza (fé) me parece ser a nossa melhor alternativa. Acreditar no trabalho. Acreditar que vale a pena ser uma pessoa boa. Sem saber se vai funcionar, se essa é a nossa real missão, sem questionar se existe uma missão. A fé é tudo que temos. A outra opção é a renúncia.

A fé é uma bolinha de açúcar.

 

O mais caro cura

Durante o jogo do Brasil vi uma propaganda do Benegrip. Descobri que existe um comprimido para o dia e outro para noite.

Quem já se automedicou sabe que, dos antigripais, o Benegrip é um dos mais carinhos. E por isso, por ser o mais caro e mais famoso, ele é o mais eficiente. Ou você acha que é a fórmula?

O remédio mais caro é um bom investimento. Comprar o mais conhecido, que está com anúncio na Globo. A marca famosa será responsável por boa parte da cura.

O exemplo clássico é o teste cego de refrigerantes. Quando vê a marca, a maioria toma um gole e diz que a Coca é melhor. Quando bebe sem saber qual marca é, as opiniões se dividem, e a Pepsi às vezes ganha.

Mas no mundo real não existe teste cego. Para ter melhores resultados, você precisa enganar a si mesmo pagando um pouquinho mais caro.

Difícil e melhor

Conversamos há pouco com um entregador da Rappi. Alguém perguntou se estava difícil trabalhar nesse frio.

Ele disse que não, porque havia comprado sua jaqueta impermeável na Decathlon. E que no frio ou na chuva muitos motoqueiros desistem de trabalhar. E então, nesses dias, ele tem mais entregas, além de um bônus da Rappi. Para ele, quando o trabalho fica mais difícil, também fica melhor.

As reflexões sobre o trabalho estão em toda a parte. Mas não as vemos quando estamos escondidos do frio.

Falar a verdade

Você tem falado a verdade?

Calma. Não me refiro ao “não mentirás”. Refiro-me aos momentos em que você queria ou deveria falar… mas cala. Omite. Evita a conversa difícil. 

E não se trata de falar o que vem na cabeça. É anunciar os seus valores. Bater o pé diante daquilo que é nitidamente errado ou injusto. Pois como sabemos, para que o mal vença, basta o silêncio dos bons. 

E uma dúvida: silenciar quando deveria falar é uma forma de tornar-se mal aos poucos?