Responsabilidade e propósito

Talvez você já leu ou ouviu algo do Jordan Peterson, autor do já clássico livro 12 regras para a vida (o próximo livro dele sai do forno em breve).

A mensagem dele tem um ponto central com potencial de fazer você repensar tudo. É o seguinte:

1.Sim, você precisa de um propósito (um sentido), ou vai padecer questionando a existência;

2.Na busca do propósito, o primeiro passo é assumir responsabilidade: primeiro por você mesmo, pelas suas decisões e ações. Depois, quem sabe e se possível, pelos outros.

“Assumir responsabilidade” pode parecer vago e muito amplo. Mas cabe a cada um entender a próxima pequena responsabilidade que vai assumir.

Essa busca por mais e mais responsabilidades, amparadas pela ética e por valores, deve ser (acredito que seja) o propósito propriamente dito.

Ou ainda: propósito não é algo que se encontra num novo emprego. É algo que se constrói assumindo responsabilidades. 

Fazer bem o que precisa

O jovem está insatisfeito com o atual trabalho. E ele está há apenas um ano nessa empresa. E não sabe o que fazer. Pensa em pedir as contas.

Um alerta: se você não sabe o que fazer, é melhor não pedir as contas agora. São dois problemas diferentes. É melhor descobrir o que fazer durante o atual trabalho.

E nesse tempo, se possível, tentar fazer bem o que precisa fazer. Dá o mesmo trabalho passar 40 horas por semana sendo bom ou sendo medíocre.

Não negociar

Não tem como negociar com quem não quer negociar.

Ele (ou ela) refuta. Não compactua. Levanta e vai embora. Ele é teimoso? Pode ser. Mas se ele tem muito claro o que quer e acredita, não há argumento de venda que faça ele mudar.

Dizer “não!”, muitas vezes, é a forma de conquistar a liberdade de agir de acordo com princípios.

Não tem como negociar com quem não negocia os seus valores.

Parar de agradar

Já tem tempo que falo aqui sobre a ideia de via negativa: a ideia de não ser/fazer (ou parar de ser/fazer) para gerar mudança. Pois parar pode ser tão importante como começar.

Em geral falamos em parar de fazer algo para liberar tempo para outras coisas. E faz sentido.

Mas podemos ir além: por exemplo, parar de falar o que você não acredita. Parar de falar para agradar chefe, cônjuge, amigos.

Seria uma mudança pequena, teoricamente simples, mas de impacto imensurável. Devem ser pesadas as consequências de passar a vida toda repetindo coisas que você não concorda ou não acredita. Tudo para evitar conflito, para manter o emprego e a relação, para não perder o amigo.

Depois de um tempo, não é de se admirar se a pessoa já nem souber mais no que realmente acredita.

Eu contribuo mais

Não parece que você faz mais do que os outros, e que não é reconhecido por isso?

Pode até ser que isso seja fato. Mas é importante saber que geralmente superestimamos nossa contribuição e nosso mérito. Em estudos com casais que não se entendem, por exemplo, é normal que os dois acreditem ser quem contribui mais para o bem da relação. Isso também acontece, talvez ainda mais, no ambiente de trabalho. “Eu me dedico mais e não sou reconhecido.”

Uma recomendação para quebrar esse viés: listar pelo menos 10 situações em que você tem sido mais dedicado do que o cônjuge ou do que o colega de trabalho. Vai ser fácil listar 3 ou 4. Mas você vai penar para achar 10. E esse esforço de memória deve, automaticamente, despertar humildade, empatia e, especialmente, trazer novas perspectivas. 

Números não emocionam

Quanto você doaria para ajudar a salvar 2 mil, 20 mil ou 200 mil pássaros que são contaminados por petróleo no mar?

Estudos assim mostram sempre que as estatísticas influenciam pouco no valor da contribuição. No exemplo, para salvar 2 mil pássaros o grupo 1 respondeu que doaria, em média, 80 dólares. Para salvar 200 mil? A média das respostas do grupo 2 foi de 88 dólares. E para salvar 20 mil pássaros? A média do grupo 3 foi de 77 dólares. O número de pássaros que seriam beneficiados fez pouca ou nenhuma diferença.

Não somos tocados por estatísticas. Os números não nos contam uma história. Não tocam o coração, digamos.

Por isso que no Jornal Nacional você vê uma matéria sobre o aumento da inflação retratando a dificuldade da Dona Maria em abastecer a geladeira. O que nos toca são os depoimentos, as imagens que encantam, espantam e geram identificação.

Um ou mil pássaros sofrendo formam a mesma imagem na nossa mente. Nossa biologia negligencia a estatística, especialmente em questões que mexem com as emoções.

Em tempo: é preciso cautela com o uso de gráficos e estatísticas na comunicação

Mudar para ser

O que é necessário para ser presidente da república? Se parar para pensar, quais características você identifica nos últimos presidentes do Brasil? Arrogância? Cinismo? Rabo preso? Falsidade?

Não precisa responder. Exagero no exemplo para chegar no seguinte ponto: para ocupar determinados cargos e posições, ou você já tem um perfil característico, ou precisa adquirir algumas… características.

E aí vem a pergunta: você aceitaria mudar o seu jeito (e talvez os seus valores) para assumir um cargo que você almeja?

Vejo muita gente querendo ser X ou Y na vida. Dependendo do que é X ou Y, o preço será se adaptar ao meio, e aos poucos se tornar outra pessoa.

Mas o oposto também acontece: se X ou Y são posições nobres, elas vão exigir que você se torne melhor.