Liberdade é dizer não

Mais um motivo para você ter um trabalho que pague as suas contas, enquanto no tempo livre você pratica a sua arte (o seu sonho): você não vai precisar trabalhar com clientes ruins.

Um exemplo: você quer ser consultor de uma área específica. Você está começando. Mas se você já precisa da consultoria para pagar as contas, vai ter que aceitar trabalhos que não “casam” com a sua entrega. Vai ter que se adaptar ao cliente ruim, afetando o trabalho final.

Mas se você não depende do dinheiro da consultoria, você vai poder escolher melhor com quem trabalhar. Vai poder cobrar um preço justo, ou não cobrar nada. Ja pensou: é você quem escolhe os projetos e os clientes.

E o melhor: não vai precisar vender coisas banais, simplificadas, enquanto implora curtidas em redes sociais. O seu objetivo no seu tempo livre é a qualidade. É aprimorar. É aprender, escolhendo com quem, como e por quanto trabalhar.

Liberdade e autonomia, para quem toca projetos paralelos, é poder olhar tranquilamente para uma proposta ruim e dizer: “Não, obrigado”.

Gostar do que faz

Você precisa ter um trabalho para pagar as suas contas. Mas creio que você já sabe disso. Repito esse fato porque é preocupante a quantidade de gente que quer um trabalho que, além de pagar as contas, traga propósito e reconhecimento. Eu me incluo nessa multidão de sonhadores.

Mas é bastante improvável que o seguinte cenário aconteça de uma hora para a outra: você fazer o que gosta (ou ama!), ganhar bem, e se sentir realizado com o que faz. Quem sabe essa combinação possa ser um objetivo, uma construção constante, enquanto trabalhamos no que for possível para gerar receita.

O que pode funcionar: ter um trabalho qualquer como fonte de renda. E no tempo livre você faz (em forma de projetos) o que você gostaria que fosse seu trabalho: escrever, pintar, desenhar, dançar, correr, ensinar. Tanto faz. O que não ajuda é você se sentir infeliz por não ser pago para fazer o que você gosta.

Se você quiser, você pode transformar o seu trabalho atual em um laboratório. Lá você pode aprender muitas habilidades que vão te ajudar a realizar sonhos. Mas só se você permitir que esse trabalho atual sirva como fonte recorrente de aprendizado.

E cuidado: você ainda corre o risco de, já que não está fazendo o que gosta das 8 às 18, começar a gostar do que faz.

Um a cada interação

Você se comporta de formas diferentes dependendo da pessoa com quem você interage. É algo muito difícil de controlar: com alguns familiares e amigos você se sente à vontade, fala o que pensa. Já com o chefe, ou com um cliente importante, você é outra pessoa – e em geral, diferente daquela que você gostaria de ser. A propósito: você lembra de como era difícil interagir com a menina da segunda fila, na quinta série?

Mas é importante notar que não se trata de ser assim, e sim de estar assim. Em função de inúmeros fatores (status, poder, admiração, medo) nossa forma de interagir depende de como consideramos a outra pessoa. Se a menina da segunda fila virou sua esposa, a interação hoje é outra.

E não tem o que fazer: somos animais sociais. Há milhares de anos que começamos adaptar nosso comportamento para sobreviver e não ser expulsos da tribo (o medo do chefe é ancestral).

O que me parece que ajuda (a quem quer mudar) é estar consciente e observar a própria atuação diante das situações que surgirem. Essa é a primeira etapa para um diagnóstico do que pode ser melhorado.

E vale ressaltar: não sei se dá para dizer que você é “tímido”, ou “impulsivo”, ou “humilde”, ou seja lá o rótulo que você inventou para tentar se explicar. Você fica assim, dependendo da situação. Buscar novas situações pode ser uma forma de ficar e estar diferente.

Um pouquinho de caos

Eu conversava com um amigo que foi para a Índia. Entre outras coisas, ele ficou impressionado com o trânsito: carros, motos, bicicletas, pedestres e animais percorrendo as mesmas vias de forma caótica. “Como não acontecem acidentes?”

Lembrei de estudos que mostram que, com a ausência de algumas regras (placas, semáforos), precisamos prestar mais atenção para saber como agir (dirigir). Quando não nos dizem como proceder, precisamos de cautela.  

Sistemas complexos como uma empresa, por exemplo, costumam se organizar de forma automática a partir de uma estrutura central. E muitas regras, nesses cenários, podem ter um efeito contrário.

Isso nos leva a uma conclusão importante para o nosso trabalho: um esforço de organização nem sempre é a solução para a bagunça.

O que fazer então para tentar botar ordem em um sistema complexo? Quem sabe, inserir, intencionalmente, algumas pequenas doses de caos: uma urgência. Um imprevisto. Um susto. Algo que exige ações imediatas. E então, observar como o sistema reage.

A boa imprevisibilidade

Concentramos nossos maiores esforços (psicológicos, principalmente) na luta contra a imprevisibilidade das coisas. Perdemos o sono imaginando as consequências do inesperado. E costumamos perder essa briga.

Mas um pouco de imprevisibilidade pode fazer bem.

Um exemplo: você chega em casa para o almoço, todo dia, ao meio dia em ponto. Se você atrasar, a família se preocupa. O telefone toca: “Cadê você?” E curiosamente, as suas pessoas mais importantes sofrem com a expectativa decorrente da previsibilidade que você criou. (E você acaba sendo previsível também no trabalho: toda manhã, dez minutos antes do meio dia, você vai embora. O eventual problema vai ter que esperar até a tarde.)

Não seria bom, nesse caso, poder flexibilizar a rotina em função de algo importante que o acaso trouxe?

O desafio é encontrar o ponto ideal entre o imprevisível reativo, e o intransigente previsível. Dependendo da situação, você vai ter que saber transitar entre os dois extremos. Se não souber, quando a aleatoriedade da vida chegar, você pode sofrer mais para se levantar e se adaptar.

 

Um sonho moderno

Você deve ter reclamado da comida quando era pequeno. E não sei se você lembra, mas sua mãe respondeu que algumas pessoas nem tinham o que comer. E você voltou ao prato, talvez em um silêncio reflexivo, ou talvez resignado. De qualquer forma, você entendeu o recado.

Acho que deveríamos usar mais esse tipo de comparação. Como essa: qual era o trabalho dos seus avós? Como eles ganhavam a vida?

Seus avós devem achar que o seu trabalho atual é um sonho moderno. Eles não devem entender nada quando você já entra em casa reclamando.

Como você vai explicar para eles que você quer ter (além de dinheiro) propósito, reconhecimento, status, feriados prolongados e coaching?

Se oferecessem o seu trabalho atual para qualquer pessoa há algumas décadas, ela não apenas aceitaria: ela iria chorar de emoção. Ela não iria acreditar! Ele iria achar que estava dormindo, e que tudo não passava de um sonho moderno.

Complexidade e simplificações

Vivemos em sistemas complexos. Absurdamente relacionados. Qualquer pequena alteração em um deles pode afetar todos os outros.

Mesmo assim, tentamos interpretar o mundo de uma forma linear: procurando causas claras para as consequências.

“Ela deixou o emprego porque não gostava do chefe”. “Ele traiu a esposa porque ela só pensava em trabalho”. “Você errou porque não fez como eu falei”. “O negócio não deu certo porque não investiram em marketing”. Passamos boa parte do dia tentando colocar sentido no mundo com base nessas simplificações afobadas.

Precisamos aceitar a complexidade de todos os aspectos da vida. Isso vai nos tornar mais humildes e menos “donos da verdade”.

Mas vale lembrar: vivemos em sistemas complexos. Absurdamente relacionados. Qualquer pequena alteração em um deles pode afetar todos os outros. Qual pequena alteração você poderia fazer para impactar os sistemas em que você está?