As releituras

Lembrei de outro perigo da leitura – essa atividade nobre, mas que pode servir como um meio de procrastinar, ou ainda (reflexão de hoje) ser realizada de uma forma contraproducente.

Existe um jeito errado de ler? Pois é: ao invés de ler, anotar, refletir e retornar aos pontos que destacamos, queremos ler novos livros. Tentamos acabar logo um ótimo livro para poder contabilizar mais um e começar o próximo. Qual é a lógica dessa pressa?

E por que começar um livro novo, quando o clássico lido já foi esquecido? As releituras são fundamentais. Porque esquecemos. Porque o texto permanece o mesmo, mas o leitor muda muito com o tempo. Afinal de contas, com novos olhos, num novo contexto, surgem novas interpretações.

Resignada ou faceira

A pessoa que chega de fora percebe a situação e afirma: “Isso não está certo!”

O tempo passa, e as coisas continuam erradas – e incertas.

Talvez ela vá embora, inconformada. Ou talvez ela fique, e em breve vai estar afirmando, resignada ou faceira: “É assim que as coisas funcionam por aqui!”

 

Nobre procrastinação

“Como é bonito o hábito da leitura!”

“Ler é nobre, bem melhor do que passar o tempo na Netflix e nas redes sociais.”

É o que dizem. E me parece que aceitamos essa aparente superioridade do ato de ler.

Não vou nem entrar no mérito da qualidade do livro. A dúvida é outra: será que estamos usando também a leitura como uma forma de procrastinação?

Afinal, ler um livro é bem mais cômodo do que, digamos, tocar um projeto. E justamente por isso, a nobre leitura pode estar, silenciosamente, nos impedindo de realizar sonhos.

 

O trabalho difícil

Quem na sua equipe se disponibiliza a fazer o trabalho difícil? Você?

(Primeiro, é preciso definir: qual é o “trabalho difícil” na sua empresa? Provavelmente não é carregar peso.)

Fazer o trabalho difícil tem dois benefícios. Um é óbvio: o trabalho “anda”, pois em geral é bem esse trabalho que evitamos. O outro é indireto: fazer o trabalho difícil nos molda. O trabalho fácil pode ser necessário, mas é cômodo, substituível, e pouco ou nada ensina.

Ou seja: o trabalho difícil é uma oportunidade tanto para colaboração quanto para evolução individual. Logo:

1.Qual é o trabalho difícil na sua empresa? 2.Quem vai ter a honra de assumi-lo? Você?

Outra rajada de vento

De tempos em tempos uma rajada de vento aparece para destruir o que construímos. Não tem como descobrir se existe algum sentido nessa frequência. O que nos resta, assim, é escolher uma forma de interpretar o ocorrido.

O mais nobre (e útil) é interpretar como uma vitória o fato de o estrago ter sido, mais uma vez, apenas material. Reconstruir é a nossa arte. O fato vai passar. O que vai ficar é a história que inventamos sobre o fato.

E assim, também se torna nobre aquele que agradece pela vida dos seus enquanto contempla os destroços.

 

A lei do menor esforço

Alguém me explicou o comportamento de outro alguém da seguinte forma: “Ele segue a lei do menor esforço.”

A pessoa queria dizer que a outra pessoa sempre escolhe o caminho mais fácil no trabalho. E o diagnóstico mostrava que ela tinha razão.

Essa “lei” se torna um estilo de vida. E não é por má fé – é quase biológico. Se não tomarmos cuidado, estamos sempre pensando em como evitar a fadiga.

Por que telefonar, se posso fazer minha parte mandando um e-mail e me livrando do problema?

Por que apontar o problema, vai que depois eu preciso ajudar a resolver?

Essa postura molda a pessoa, e tem consequências. Um exemplo do que eu já vi acontecer: certo dia, este funcionário que sempre seguiu a lei do menor esforço, resolveu empreender. E aí ele não tem mais para quem encaminhar o problema. Tudo é problema dele.

Para ficar na linguagem popular, ele não vai poder “medir esforços”, como fazia no emprego. E aí vem o grande problema: será que ele consegue mudar seu padrão de atuação assim que muda de função? Seria melhor ter praticado antes.

 

Tolerar as fraquezas?

O presidente Abraham Lincoln foi informado de que o General Ulysses S. Grant (comandante-chefe do exército da União na Guerra Civil nos EUA) andava bebendo muito em serviço. A resposta de Lincoln ficou famosa: “Se eu soubesse a marca que ele prefere, mandaria um barril para cada um dos outros generais.”

Grant era, na visão do chefe, o único capaz de planejar e conduzir campanhas vitoriosas.

Quem lembra dessa história é Peter Drucker, no livro O Gerente Eficaz. Drucker usa o exemplo para ilustrar a ideia de que devemos gerenciar com base na força das pessoas (planejar e conduzir) e não preocupado em resolver as fraquezas (álcool).

Não tenho autoridade nem coragem para discordar de Peter Drucker. Mas precisamos refletir: quais fraquezas podem ser toleradas em razão de pontos fortes? Precisamos tolerar as manias do suposto craque ou gênio, mesmo sabendo o quanto elas afetam a equipe?