Configuração biológica padrão

Você já sentiu ansiedade e medo e pensou que algo estava errado com você. Justo.

Não podemos esquecer, no entanto, que nosso DNA foi moldado na natureza selvagem. Nosso estado natural é o medo, o alerta, a expectativa em torno de tudo que pode dar errado. Para sobreviver é necessário sentir-se assim.

Milagrosamente construímos uma civilização em que o normal é a paz e a tranquilidade.

O que eu quero dizer: ter um estado emocional estável e sereno não é a nossa configuração biológica padrão. É algo que se aprende, que se pratica. E é um esforço constante pois, no menor descuido, você se vê de volta à selva.

Filtro dos sonhos

Você mente quando conta um sonho para alguém. 

Você sabe bem como é: apareceu uma pessoa nos teus sonhos, mas na cena seguinte, já era outra. Você estava em um local que, na sequência, já não era mais o mesmo. Logo, quando vamos contar o sonho, precisamos inventar um pouquinho. Construir pontes que tragam alguma coerência e interesse para a narrativa.

Interpretar os sonhos, dessa forma, é dar significado a uma história que, em partes, você inventou. Vale alguma coisa interpretar uma história mal contada?

É difícil admitir, mas o mesmo acontece com as nossas memórias. Vários estudos mostram o quanto elas são modificadas a cada novo relato. Falar do passado é reconstrui-lo a cada palavra. E falar do passado é também construir o filtro que vai interpretar o futuro.

Enfim, temos três opções: 1.continuar inventando narrativas interessantes, 2.falar sobre memórias e sonhos da forma fragmentada, imprecisa e desconexa que são, ou 3.não falar nada. Eu gosto da primeira e da terceira.

 

Identificamos problemas

Uma das atividades cognitivas mais difíceis é a formulação de um problema. Pois é uma tarefa que demanda muita investigação em busca das causas. E problemas que realmente demandam uma solução possuem causas complexas, pouco evidentes, relacionadas, aleatórias.

Em negócios, usamos muito o posicionamento de que “resolvemos problemas”. Talvez não seja tão atraente para o cliente, mas seria mais honesto e eficiente definir como foco do trabalho a identificação precisa das origens do problema. Resolvemos problemas porque dedicamos tempo entendendo e identificando as reais causas.

Mas isso dá trabalho. Não é escalável, não gera receita recorrente, e não é uma plataforma – que, muitas vezes, acaba adaptando o problema à solução. Estamos em um mercado (destaque para o tecnológico) que entrega soluções parciais e superficiais para problemas complexos. No entanto, desconfio que isso seja o máximo que conseguimos fazer. O menos superficial ganha.

Afastar os semelhantes

Professores e psicólogos bem intencionados resolveram levar todas as crianças desajustadas para uma colônia de férias. Lá eles trabalharam bastante para ajudar as crianças, com interações, dinâmicas e intervenções.

O resultado? Elas saíram de lá piores do que chegaram.

O motivo: não deveriam ter agrupado os problemáticos. É preciso inseri-los num meio melhor, inspirador, e não onde eles vão apenas encontrar semelhantes.

Guardadas as devidas proporções, isso acontece nos presídios. Acontece em grupos organizados. Isso acontece, lamentavelmente, em algumas famílias.

Para melhorar, precisamos de influências melhores – e não de problemas semelhantes e boas intenções.

Dois terços do ano

Você aguentou quase duas horas de um filme ruim. Mas no final aconteceu uma reviravolta, um diálogo com o qual você se identificou, uma cena de partir o coração –  e então tudo mudou. Você saiu feliz do cinema.

Já sabemos que o final marca mais do que tudo que acontece durante a experiência (a não ser que ocorra algo excepcional na metade). A avaliação de um período é muito influenciada pela forma que ele termina.

Se estamos numa situação ruim, digamos, em algum projeto pessoal ou profissional, encerrar com chave de ouro pode ser uma forma de reinterpretar tudo que já passou.

Completamos dois terços do ano. Quem sabe o mesmo comportamento de avaliação possa ser adotado, e os próximos meses determinem se o ano foi bom ou ruim. Mas isso você só vai conseguir dizer em 2020.

150 posts

No post 100 desabafei minha preocupação de que o meu texto estava sendo moldado pela divulgação no Instagram. E ele realmente estava. E continua sendo.

Mas não posso reclamar, pois tenho várias opções: escrever só para um público restrito, escrever o que eu bem quiser, não escrever mais, etc. No entanto, pelo menos até o post 200, vou seguir com duas dinâmicas:

Essa de compartilhar aqui insights que considero relevantes e úteis, e continuar escrevendo, digamos, para mim mesmo: “Meu querido diário”. Experimento no papel, cedo ou à noite, e algumas coisas de lá param aqui. Experimento, depois filtro.

Mas não só isso. Ultimamente andei refletindo e encontrando referências sobre o seguinte: precisamos colocar ideias abstratas em palavras não apenas para que elas sejam formalizadas, mas principalmente para que elas adquiram sentido. Escrever tem um papel semelhante à conversa: é a partir dela que construímos significados. Alguém está ouvindo, e então faz uma pergunta difícil, e o esforço da resposta faz você ver as coisas, pela primeira vez, de uma nova forma. É preciso esse esforço de colocar as ideias em ordem e conectá-las, ou não conseguimos decifrar o que estamos pensando ou sentindo.

Compartilhar no Insta também é uma forma de encontrar novos significados?

Se ganhou é bom

O time é bom porque venceu.

E o vendedor, é bom porque vendeu.

É assim que medimos nosso desempenho: com base em um resultado que, muitas vezes, não teve muita relação com habilidade e competência.

Com frequência premiamos o mais sortudo, e consideramos ele o melhor. É o efeito aura (halo): olhamos para quem ganhou, e só então interpretamos o passado. “Como ele foi ousado, arrojado, corajoso!”

E quando perde ou erra: “Como ele foi displicente e irresponsável!”

É a mesma pessoa, as mesmas ações. Só que uma teve sorte, a outra azar. Nosso julgamento do passado depende do resultado final.