Cama de Procusto

Na mitologia grega, Procusto era um malfeitor disfarçado de dono de pousada. Ele fazia com que sua cama servisse para todos: se o viajante fosse maior que o leito, ele cortava os pés. Se fosse menor, ele esticava a vítima para que ela ficasse do tamanho da cama.

A tal “cama de Procusto” é usada com frequência como metáfora para o nosso viés de adaptar o mundo às nossas regras.

Pegamos algo que não entendemos muito bem e encaixamos nas nossas crenças: cortando uma parte que não concordamos, esticando outra que não entendemos, até que faça algum sentido. Até que combine com nossa forma de ver o mundo. É assim que interpretamos os fatos. É assim que julgamos as decisões dos outros.

É praticamente impossível eliminar esse nosso viés. A alternativa, então, é mudar as crenças.

O seu ônibus

Duas opções:

1.Anunciar para onde o seu ônibus está indo, e então aguardar quem quer ir para o mesmo lugar;

2.Escolher as pessoas com quem você quer ir e só então decidir, com elas, para onde ir.

Nesse contexto de permanente mudança, a segunda opção me parece mais adequada. A não ser que já exista um propósito, uma visão muito clara que aponte para uma direção. Mas pode acontecer de a percepção mudar, e o ônibus metafórico precisar mudar de rota. O que você vai dizer para quem estava querendo ir para o local antigo?

Por isso, nesse contexto de frenética mudança, a segunda opção me parece mais adequada. Selecionar companheiros de viagem com base em valores e princípios em comum:  são eles, no fim das contas, que vão definir os nossos rumos.

Premiando a conivência

Semana passada falei sobre a maior ideia já advinda da psicologia: é mais fácil retirar o que impede a mudança do que forçar o movimento que queremos.

Contraditoriamente, vivemos planejando sistemas de compensação: metas, recompensas e mimos, distribuídos em troca de bom comportamento.

No caso das empresas, premiamos o comportamento que exigimos sem saber exatamente se é aquilo que a pessoa quer (ou concorda) em fazer. Ou pior: compensamos a pessoa que pode estar agindo em desacordo com o que ela acredita. Premiamos a conivência, a submissão. É insustentável.

Nobre por status?

Bill Gates e Warren Buffett criaram em 2010 a Giving Pledge.

A ideia foi, no mínimo, ousada: convidar bilionários a doar pelo menos a metade de suas fortunas para a caridade. Deu certo.

Estima-se que hoje o fundo já tenha arrecadado mais de 300 bilhões de dólares.

O que um(a) senhor(a) ricaço(a) prefere: continuar ralando para entrar na lista da Fortune, ou curar a ganância ajudando quem precisa – e também entrar para uma lista de notórios?

Se a causa é nobre, que seja status a moeda de troca.

O que impede o hábito

Um cenário corriqueiro: eu voltando para casa no final do dia ouvindo Daniel Kahneman.

Ontem ele citou o que considera ser o maior achado da psicologia moderna: para criar um hábito, ao invés de forçar a mudança, retire o que está impedindo que ela aconteça.

Ou: você está no ponto A e quer ir para o ponto B. O que facilitaria o caminho até B? O que torna mais difícil permanecer no ponto A?

Para construir hábitos (ou gerar mudanças) costuma ser mais eficiente fazer pequenos ajustes indiretamente relacionados com o problema. Volto ao tema em breve.

Imparcialidade e empatia

Ontem comentei aqui que a situação nos caracteriza mais do que a nossa personalidade. Um momento difícil, por exemplo, costuma ditar o humor e o trato. 

Fiquei pensando: é possível traçar um paralelo com aquele ditado que diz que a ocasião faz o ladrão? Alguém sob dificuldades está mais inclinado ao crime? Ou “tornar-se ladrão” depende de quão sólidos são os valores e princípios do eventual oportunista?

Não vale a pena explorar essa polêmica. Mas o fato (científico) é que a situação nos molda. Logo, o julgamento das decisões e atitudes alheias precisa considerar o contexto e as circunstâncias. Um belo conflito entre a imparcialidade e a empatia.

Somos o contexto

A situação nos caracteriza mais do que a nossa personalidade.

Tomamos decisões de acordo com o contexto em que nos encontramos.

Para avaliar a forma que alguma pessoa agiu, é necessário entender o que está acontecendo com ela: os problemas, as cobranças, as preocupações. Enxergar a nuvem escura que apareceu em cima dela.

E então entra a empatia: o que você faria nas mesmas condições e circunstâncias?