Mudar para ser

O que é necessário para ser presidente da república? Se parar para pensar, quais características você identifica nos últimos presidentes do Brasil? Arrogância? Cinismo? Rabo preso? Falsidade?

Não precisa responder. Exagero no exemplo para chegar no seguinte ponto: para ocupar determinados cargos e posições, ou você já tem um perfil característico, ou precisa adquirir algumas… características.

E aí vem a pergunta: você aceitaria mudar o seu jeito (e talvez os seus valores) para assumir um cargo que você almeja?

Vejo muita gente querendo ser X ou Y na vida. Dependendo do que é X ou Y, o preço será se adaptar ao meio, e aos poucos se tornar outra pessoa.

Mas o oposto também acontece: se X ou Y são posições nobres, elas vão exigir que você se torne melhor.

Trabalhar mais?

Mais um pouco de análise da frase “Quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho!”

O que mais me incomoda nessa frase não é nem o caráter aleatório da sorte, comentado aqui ontem. Incomoda e preocupa essa generalização do trabalho.

Trabalhar mais não significa necessariamente trabalhar melhor, ou com mais eficiência, ou causando mais impacto no mundo. “Trabalhar mais”, em geral, significa medir o trabalho só pelas horas dedicadas à função.

Perceba o tamanho do problema: já vi essa frase num para-choque de caminhão. Então, para o motorista, trabalhar mais é dormir menos, correndo contra o relógio?

Não é isso que vai trazer mais sorte. Precisamos achar outras métricas para avaliar o trabalho.

Trabalho e sorte

“Quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho!”

Já ouvi essa frase várias vezes. Até já vi ela escrita na traseira de um caminhão.

Será que é assim que funciona? Mais trabalho = mais sorte?

É uma mentalidade admirável, e pode até ser que o otimismo e a motivação do trabalho façam a pessoa interpretar os fatos de forma diferente. Mas não é assim que funciona. A sorte (e o azar) são aleatórios. Não adianta procurar causas para eventos aleatórios – se encontrarmos alguma, será falsa.

O que nos resta a fazer é decidir como trabalhar nos momentos de sorte e nos momentos de azar. Na sorte, aproveitando ao máximo a oportunidade. No azar, refletindo, ajustando, corrigindo. Pois contar com a sorte é apostar no cara ou coroa.

Ocultar as curtidas

Há alguns anos escrevi um texto que questionava o seguinte: o Instagram muda as pessoas, ou apenas revela quem elas são?

Acho que eu já tinha a resposta, mas não consegui articular direito. É fato: a busca por confirmação social através de curtidas nos moldou – para pior. Mudamos e, performáticos, sofremos as consequências.

Surge uma esperança: ocultar as curtidas pode nos moldar mais uma vez. Veremos. Volto ao tema em alguns anos.

Confirmação emocional

Vou repetir aqui duas frases que usei ontem:

“Sentimos prazer, literalmente, quando encontramos informações que comprovam as nossas crenças. A dopamina entra em ação quando você ouve o que confirma e agrada.”

Repito porque cheguei num exemplo que ilustra perfeitamente 1) nossa natureza emocional e 2) o nosso viés de confirmação.

O exemplo: quando você encontra uma música que fala exatamente o que você está sentindo. Você ouve mil vezes, decora a letra, manda para as pessoas, ri ou chora (tanto faz), posta um trecho, vai no show do artista. Tudo porque você achou alguém que traduziu (e confirmou) o que você estava sentindo.

E não adianta alguém tentar provar por A + B que você deveria pensar diferente. Não é da nossa biologia mudar de ideia com base em fatos. Por isso insisto: por que insistimos em argumentar tanto?

 

Furar a própria bolha

Sentimos prazer, literalmente, quando encontramos informações que comprovam as nossas crenças. A dopamina entra em ação quando você ouve o que confirma e agrada.

O Facebook sabe disso, e por isso você é abastecido só com informação “relevante” para você. O algoritmo trabalha para manter a sua aparente coerência: uma bolha construída com base no que você curte e compartilha.

É por isso que a ideia de que os opostos se atraem é falsa. São os semelhantes que se unem: um alegrando o outro enquanto comprovam pontos de vista em comum.

Tentar conviver com diferentes traz um enorme desconforto psicológico. Mas é o preço para furar a própria bolha.

Fatos não viram crenças

Em geral não mudamos de ideia quando temos acesso a dados ou fatos divergentes. Mesmo assim, argumentamos e brigamos, tentando fazer a outra pessoa entender o nosso ponto de vista. Tentando fazer a outra pessoa compreender a (nossa) verdade.

Essa nossa capacidade racional não é boa para compreender fatos objetivamente – ela evoluiu, desde as primitivas aglomerações, para argumentar, brigar, ganhar o debate. Imagine a confusão: um ser emotivo, movido por hormônios, tentando convencer a tribo com os supostos fatos.

E talvez por isso que a gente ignora a ciência na formação das nossas crenças. Só usamos os fatos quando queremos mostrar para os outros índios que temos razão.