A boa imprevisibilidade

Concentramos nossos maiores esforços (psicológicos, principalmente) na luta contra a imprevisibilidade das coisas. Perdemos o sono imaginando as consequências do inesperado. E costumamos perder essa briga.

Mas um pouco de imprevisibilidade pode fazer bem.

Um exemplo: você chega em casa para o almoço, todo dia, ao meio dia em ponto. Se você atrasar, a família se preocupa. O telefone toca: “Cadê você?” E curiosamente, as suas pessoas mais importantes sofrem com a expectativa decorrente da previsibilidade que você criou. (E você acaba sendo previsível também no trabalho: toda manhã, dez minutos antes do meio dia, você vai embora. O eventual problema vai ter que esperar até a tarde.)

Não seria bom, nesse caso, poder flexibilizar a rotina em função de algo importante que o acaso trouxe?

O desafio é encontrar o ponto ideal entre o imprevisível reativo, e o intransigente previsível. Dependendo da situação, você vai ter que saber transitar entre os dois extremos. Se não souber, quando a aleatoriedade da vida chegar, você pode sofrer mais para se levantar e se adaptar.

 

Um sonho moderno

Você deve ter reclamado da comida quando era pequeno. E não sei se você lembra, mas sua mãe respondeu que algumas pessoas nem tinham o que comer. E você voltou ao prato, talvez em um silêncio reflexivo, ou talvez resignado. De qualquer forma, você entendeu o recado.

Acho que deveríamos usar mais esse tipo de comparação. Como essa: qual era o trabalho dos seus avós? Como eles ganhavam a vida?

Seus avós devem achar que o seu trabalho atual é um sonho moderno. Eles não devem entender nada quando você já entra em casa reclamando.

Como você vai explicar para eles que você quer ter (além de dinheiro) propósito, reconhecimento, status, feriados prolongados e coaching?

Se oferecessem o seu trabalho atual para qualquer pessoa há algumas décadas, ela não apenas aceitaria: ela iria chorar de emoção. Ela não iria acreditar! Ele iria achar que estava dormindo, e que tudo não passava de um sonho moderno.

Complexidade e simplificações

Vivemos em sistemas complexos. Absurdamente relacionados. Qualquer pequena alteração em um deles pode afetar todos os outros.

Mesmo assim, tentamos interpretar o mundo de uma forma linear: procurando causas claras para as consequências.

“Ela deixou o emprego porque não gostava do chefe”. “Ele traiu a esposa porque ela só pensava em trabalho”. “Você errou porque não fez como eu falei”. “O negócio não deu certo porque não investiram em marketing”. Passamos boa parte do dia tentando colocar sentido no mundo com base nessas simplificações afobadas.

Precisamos aceitar a complexidade de todos os aspectos da vida. Isso vai nos tornar mais humildes e menos “donos da verdade”.

Mas vale lembrar: vivemos em sistemas complexos. Absurdamente relacionados. Qualquer pequena alteração em um deles pode afetar todos os outros. Qual pequena alteração você poderia fazer para impactar os sistemas em que você está?

É coisa da sua cabeça

Ouvi o relato de uma pessoa que, durante muito tempo, enfrentou um trauma psicológico. Ela disse que a pior parte era ouvir as pessoas dizendo, com a melhor das intenções: “Está tudo bem, isso é coisa da sua cabeça!”

Só que ela já sabia que o problema estava justamente na própria cabeça.

Vou levar a reflexão para outro lado. Pergunto: encontramos na vida algum tipo de experiência que não aconteça “na cabeça”?

Desafio o leitor a encontrar alguma.

Como seria o sucesso?

Parece-me que estamos buscando o sucesso sem saber exatamente o que queremos. Ou melhor: sem saber exatamente o que consideramos sucesso.

Sugiro uma atividade: descreva o que é sucesso para você. Imagine-se uma pessoa de sucesso. Como seria?

Com essa descrição em mãos, tenho certeza que você vai perceber que sua rotina, dia após dia, aponta para outro lugar – e não para esse (ou isso) que você descreveu.

A régua errada

Acabamos nos tornando aquilo que medimos.
Se você trabalha por causa do dinheiro, o resultado é um. Se você faz o seu trabalho para colaborar, ajudar, construir, o resultado é outro.
Se numa viagem de carro você mede o tempo na estrada, a viagem é uma. Se você mede a segurança, ou as paisagens bonitas, a viagem é outra.
Ou seja: não adianta esperar um resultado se estamos medimos o progresso com a régua errada.
E não é apenas o resultado que é alterado pelo que medimos. Essa busca também nos molda.
Ou você consegue ser um louco no volante e, ao chegar no destino, ser outra pessoa?

Mimados e frágeis

Todo mundo já ouviu a história dos pais que mimaram demais o filho. Ele ganhava tudo que queria. Não era cobrado. Não era punido. E deu no que deu: só incomodou na adolescência, e não se tornou o adulto que poderia ter sido.

Parece-nos bem claro o erro que os pais cometeram. Mas também dá para entender que a intenção deles era boa: queriam proteger o filho. Era amor puro. Ponto. 

Duas conclusões. Uma, evidente: às vezes materializamos a boa intenção de formas equivocadas. E os resultados podem ser catastróficos.

A segunda, e essa a mais crítica: não estamos cometendo o mesmo erro dos pais protetores em outras áreas da vida? Evitando exposição, riscos, decepções: justamente as coisas que nos formam. Coisas que não matam, mas fortalecem.

Será que a nossa busca incessante por segurança e estabilidade não é justamente o que está nos tornando mimados e frágeis?