Definido pelo erro

O motorista matou uma pessoa porque se distraiu no Whatsapp. Ele foi preso. Justo, né?

Também acho. Mas por outro lado, ele foi o azarado que errou justamente quando havia alguém atravessando a faixa de pedestres. Afinal de contas, todos nós estamos dirigindo distraídos.

“O presidiário”: agora ele é assim definido, em função do erro que cometeu.

Nós classificamos as pessoas assim também no dia a dia. Pegamos o principal fato negativo e com ele rotulamos. É uma prática comum também no trabalho: em geral é assim que demitimos. Um erro, e então fazemos justiça.

Isso também é justo? Ou melhor: é coerente?

Dedicação incondicional

Tenho um amigo que está com um familiar bastante doente.

Está fora do controle dele a evolução da doença do parente. Não sabemos o que vai acontecer. Mas ele controla o que ele vai fazer, como ele vai agir nesse momento difícil.

Se você conversar com quem já passou por situações similares, perceberá que, não importa o que houve, eles se orgulham da dedicação total. De não ter medido esforços.

Já falei aqui sobre a diferença básica entre felicidade e satisfação. Você provavelmente não estará feliz nesse período difícil. Mas se optar pela dedicação incondicional, no futuro, quando olhar em retrospectiva, também vai se orgulhar.

Contemplação e silêncio

Parei no sinal, início da noite. Eu estava ouvindo uma entrevista do Seth Godin enquanto beliscava umas bolachinhas. Um mendigo vinha caminhando entre os carros.

Abri o vidro e ofereci o pacote, que estava pela metade.

Ele perguntou: “É doce?”

E eu: “Sim! Com gengibre!”

Ele: “Eu não como açúcar, mas obrigado, vou dar para o meu irmão que está logo ali.”

Por hoje é isso. Nenhuma observação, opinião, reflexão. Algumas coisas não exigem nada mais do que contemplação e silêncio. E, se possível, um sorriso.

 

Algo marcante

Dificilmente encontramos por acaso algo que vale a pena. Uma grata surpresa. Até acontece, mas não é frequente.

Em geral, o que vale a pena é recomendado. Alguém indica, sugere. Existe uma complexa dinâmica social que nos leva a falar sobre o que é bom (e sobre o que é ruim, claro).

O que isso significa para quem vende?

1.Sim!, precisamos divulgar e propagar o que queremos entregar.

2.Mas também precisamos passar mais tempo criando algo marcante, digno de comentários.

 

Escolher a si mesmo

A queda do intermediário (loja, gravadora, editora) é uma das consequências mais dramáticas da internet.

Em tese, quem vende pode vender diretamente a quem interessa. E enviar para qualquer lugar.

Mas nem todo mundo entendeu o que isso implica. Não havendo intermediário, você não precisa ser “escolhido”. Se você quer vender ideias, por exemplo, não precisa de um meio de comunicação para aprovar e publicar o que você criou. Você é livre para divulgar a qualquer momento.

A queda do intermediário trouxe a responsabilidade para quem cria. Não dá mais para usar a desculpa de que “ninguém me escolhe, ninguém me dá oportunidades”. É como se você tivesse que escolher a si mesmo.

Exigir respeito

Ouvi a seguinte declaração há alguns dias: “Exijo que esse cliente me trate com respeito!”

Mas como exigir, se não controlamos o comportamento alheio?

Nesses casos você tem três opções (que estão sob seu controle):

1.Ignorar, e ser a pessoa educada que você gostaria que o outro fosse;

2.Tentar falar com essa pessoa e ver o que dá para ajustar;

3.Desistir. Terminar a relação.

O que não dá é esperar educação para só então ser educado também. Isso é esperar a consequência antes da causa.

Que tal usar uma pessoa assim para praticar virtudes e tornar-se um profissional melhor? É aquela história: o mar revolto é que forma o bom marinheiro.

Pássaro da vaidade

Fiz um curso de HTML em 1999. De um modo (hoje) arcaico, aprendi a criar sites.

E então peguei o e-mail de todas as empresas no site do provedor de São Miguel do Oeste. Assim descobri o spam.

Vários responderam. Fizemos (eu e um amigo) alguns trabalhos medíocres (a tecnologia e a vontade eram fracas). Mas lembro bem de um empresário que imaginava a imagem de um pássaro entrando voando no site dele.

Falei que aquilo não era possível com a tecnologia que tínhamos. E não deu negócio.

E assim, também em 1999 eu vi, pela primeira vez, como a vaidade do empresário pode ser prejudicial. Ele queria um site para poder se gabar, e não algo eficiente, com um propósito informativo ou comercial.

Como metáfora, continuamos desenhando passarinhos enquanto esquecemos de quem precisa da nossa ajuda.